domingo, 10 de janeiro de 2010
O ovo
O ovo
Lembro-me de quando arrancaram-me de minha mȃe.
Nem um grito foi solto.
Silȇncio.
No seqüestro mal planejado,
vi sangue derramado,
quebrados, meus irmãos, perdidos ficaram...
Já não se tornariam homens.
Agora só resta eu.
Longa viagem...
No escuro.
Sempre no silȇncio...
Penso, penso, penso...
Como estará minha mãe?
Surge uma luz.
Lugar apertado, todos enfileirados,
mas agora bem tratados.
Vejo outros como eu...
Banho e casa nova,
Parecem felizes e até maquiados!
Mais uma viagem.
Ja estou acostumando.
Talvez serei artista!
Um artista aclamado, um talento descoberto,
que nem eu mesmo sabia,
por isso fui selecionado!
...Como estará minha mãe?
Chegamos.
Um lugar estranho, cheio de gente,
todos olham, apreciam,
como se procurassem algo.
As vezes até me tocam...
Nos levaram.
Mais uma viagem.
Chegamos.
Lugar limpo e até com cheiro.
Alguém se aproxima,
olha para mim,
para meus companheiros,
volta para mim e me pega.
Fui escolhido!
Finalmente meu show terá início!
Posso ver o palco,
Ė grande, é redondo...
Tem até iluminaҫȃo!
Quanto emoҫȃo, da vontade de chorar...
Sinto a pancada.
Vejo meu sangue.
Será que estão aplaudindo?
Não.
O calor.
O calor que queima e provoca dor.
Meus irmãos,
sangue derramado, perdidos ficaram.
Eu, queimado.
Perco os sentidos...
Como estará minha mãe?
Graciela de Paula.
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